
Raras semelhanças, constantes discrepâncias. É assim que se desenrola “Sobre Café e Cigarros”, de Jim Jarmusch. Comunicação é crucial no desenvolvimento da obra, embora nem sempre esta seja capaz de reger os acontecimentos mais banais.
Discrepância. É esta a principal característica que pontua os diálogos de Sobre Café e Cigarros. O filme de Jim Jarmusch, que se desenvolve na forma de curtas metragens[1], usa gestos, olhares, expressão corporal como um todo, além da comédia, para criar situações comunicativas entre pessoas com pouco em comum.
Nas situações desenvolvidas ao longo do filme, os atores interpretam a si próprios (com uma única exceção a ser detalhada mais à frente), portanto é natural a necessidade de algo em comum, como um ponto de partida que possibilite a comunicação; nesse caso, café e cigarros. Muitas vezes, a falta de afinidade ou mesmo de um relacionamento pessoal[2] impossibilita uma troca de informações contínua, e a comunicação não-verbal passa a atuar como estratégia principal para o diálogo.
Em determinados momentos, a atenção do espectador se torna mais aguçada, uma vez que o silêncio dos personagens e as suas ações e/ou reações não-verbais o fazem compreender todas as tensões presentes na cena, sem que, para isso, seja necessária uma única palavra do comunicador ou do intérprete[3].
Nota-se que, em todos os encontros, um dos presentes oferece uma xícara de café e um cigarro, quando já não entram em cena bebendo ou fumando (excetuam-se as cenas “Primos?”, onde os personagens tomam chá, e “Delírios”, onde apenas um deles – Bill Murray – toma café). É esse o ponto de partida. A contar desse momento em diante, observa-se que a comunicação torna-se mais fluente. Os (poucos) assuntos em comum são tratados, e logo então, diante de um silêncio constrangedor, a linguagem não-verbal começa a fazer a comunicação se manter. Gestos, olhares, expressão corporal se fazem entender, muitas vezes, mais facilmente do que a linguagem verbal.
Nas situações apresentadas, os interlocutores que não se conheciam previamente mantêm uma relação social, com um distanciamento parcial. Isto ocorre na segunda cena (“Gêmeos”), onde os irmãos Joie e Cinquè Lee procuram manter uma distância considerável do garçom interpretado por Steve Busceni. Este, no entanto, procura um tratamento um pouco mais social dos irmãos, falando de um tema que julgava ser comum aos três (Elvis Presley), que na verdade não o era.
Essa tensão se repete no 11º caso (“Primos?”), em que o ator Alfred Molina se descobre primo do também ator Steve Coogan, este, no entanto, muito mais bem sucedido profissionalmente que ele. Molina espera do ídolo um grande entusiasmo ao ser comunicado do parentesco entre eles, entretanto Coogan não o manifesta e prefere manter uma relação pouco social, na verdade até mesmo pública, passando a tratá-lo com indiferença. Em determinado instante, uma fã de Steve Coogan se aproxima e lhe pede um autógrafo, o que causa uma expressão de extrema inveja por parte de Molina, essencialmente quando a fã, interpretada por Katy Hansz, é informada de que ele também é ator e o trata com indiferença. Ainda nessa cena, percebe-se que a linguagem não-verbal se sobrepõe à verbal de forma evidente, quando Molina pede o telefone do “primo” Coogan e este se nega a lhe conceder. A expressão de decepção misturada ao constrangimento é inegável. Em seguida, percebe-se que Coogan também se rende à linguagem corporal, quando Molina se retira da mesa para atender ao celular e conversa com Spike (Lee?). Ao fazer essa suposição, Steve Coogan passa a comportar-se de forma bastante interessada na conversa de Alfred Molina, demonstrando um enorme desejo de conhecer o suposto Spike Lee. Quando Molina retorna à mesa e, ao ser questionado a respeito do Spike, responde que se trata de Spike Jonze, Coogan se mostra ainda mais interessado e tenta passar o seu telefone, outrora negado ao “primo”. Este, numa expressão de inconfundível indiferença com uma “pitada de vingança”, recusa-o. O desapontamento de Coogan ao receber a resposta é tão evidente que o “Droga” dito por ele no final da cena faz-se completamente desnecessário.
Por outro lado, nos curtas de número seis (“Sem problemas”) e sete (“Primas”), nota-se uma relação um pouco mais pessoal, uma vez que os personagens envolvidos são próximos. Na primeira situação, embora não se vejam há algum tempo, Alex Descas e Isaach de Bankolé são melhores amigos. Eles se olham nos olhos, além de se abraçarem e sorrirem quando se despedem. No segundo caso, as personagens também não se vêem há um certo tempo, entretanto mantêm uma relação próxima por meio dos olhares e gestos. Nesse caso, a aproximação física é um pouco menos evidente, provavelmente se justificando pelo fato de que Cate Blanchett interpreta a si mesma e a uma prima longe do mundo das “celebridades”, o que pode tentar mostrar uma certa distância entre o seu lado “famosa” e o outro lado “normal”.
Mais uma cena que evidencia o uso da linguagem não-verbal como indispensável é a de número cinco (“Reneè”). Reneè French está sentada sozinha em uma mesa tomando café, enquanto fuma e lê algo do tipo “FAÇA SEU PRÓPRIO PEDAL DE MOTOCICLETA”. A quantidade de leite posta no café é quase “milimetrada” de tão exata, bem como o açúcar. Logo em seguida o garçom, interpretado por E. J. Rodriguez, lhe oferece mais café e o põe em sua xícara antes mesmo que Reneè possa dizer que ele não deveria fazê-lo, pois o café estava na cor e temperatura exatas. Por repetidas vezes durante a seqüência, o garçom volta à mesa da cliente para lhe oferecer café novamente e lhe perguntar se não deseja comer algo. Essa repetição, a princípio, traz um certo desconforto a Reneè. No entanto, ao final da cena, um sorriso um tanto quanto disfarçado ajuda a desfazer a expressão de dureza do rosto de Reneè French e passa a dar-lhe um ar mais leve e descontraído.
A análise comportamental das personagens de Sobre Café e Cigarros estaria incompleta se não fosse abordada a maneira de eles interpretarem as situações a que são submetidos. A estruturação cognitiva da realidade[4] de cada um dos interlocutores em todas as cenas do filme acentua as afinidades de cada comunicador com seus respectivos intérpretes. O título do primeiro diálogo (“Estranho conhecê-lo”) supõe por si só que, apesar de não se conhecerem previamente, os seus protagonistas teriam características em comum, como por exemplo, o fato de ser bastante receptivo a conhecer novas pessoas e se relacionar de forma descontraída com elas. O mesmo mostra-se perceptível na situação de número dez (“Delírios”), uma vez que os personagens GZA e RZA se mostram bastante entusiasmados com a chegada do novo personagem à cena – Bill Murray – e vice-versa. Nesses casos, observa-se que a capacidade de interpretar o conteúdo dos impulsos externos e transformá-los em ações é semelhante nos participantes da cena, o que ocasiona uma sintonia maior entre eles.
Há casos, entretanto, em que essa sintonia não ocorre perfeitamente, uma vez que a interpretação dos impulsos externos não coincide. Estas situações estão mais propícias a provocar conflitos. Exemplificando, o diálogo pouco amigável entre os irmãos Lee na cena “Gêmeos”, e o garçom interpretado por Steve Buscemi. Fica evidente que a identificação e a atribuição de sentido à idéia do “rei” Elvis Presley foi completamente distinta entre eles.
Há ainda as cenas “Em algum lugar da Califórnia”, “Essas coisas vão matá-lo” e “Jack mostra a Meg sua bobina de Tesla”, destinadas a comprovar que nem sempre fazer parte de um mesmo grupo social ou uma mesma família é uma garantia de que comunicador e intérprete irão possuir uma estruturação cognitiva da realidade semelhante. No primeiro caso, apesar de ambos gostarem de música, Iggy Pop e Tom Waits se desentendem, uma vez que a atribuição de sentido feita por Waits a uma frase de Iggy Pop teve repercussão extremamente diferente do que este esperava. O conflito entre esses dois personagens é mais forte no que diz respeito aos olhares trocados após a frase dita do que a própria resposta dada por Tom Waits ao seu interlocutor. No segundo exemplo, o mais claro caso de comunicação não-verbal se dá entre o pai Vinny Vella e o filho Vinny Vella Jr. O filho não diz uma palavra sequer, mas o pai entende tudo perfeitamente e é capaz de discutir e ainda discordar.
Por fim, a última situação a ser relatada (“Champanhe”) mostra um diálogo entre pessoas da mesma classe social, dois colegas de trabalho (Bill Rice e Taylor Mead). O modo de identificar, organizar isoladamente e atribuir sentido às coisas mostra-se semelhante quando os colegas concordam que o café que tomam está horrível mas, ainda assim, seguindo a sugestão de Taylor, decidem imaginar que tomam champanhe e, imediatamente, comentam que provam o “néctar dos deuses”.
Diante da análise e da argumentação feita ao longo do texto, percebe-se a existência de inúmeras situações relacionadas à comunicação não-verbal. Torna-se claro que um diálogo não precisa ser feito apenas com palavras. Ao contrário disso, em diversas ocasiões, os gestos, os olhares, a expressão corporal se mostram auto-suficientes quando o objetivo é mostrar o que se pensa, essencialmente nos momentos em que as palavras não seriam claras o bastante para transmitir pensamentos. Nota-se ainda que a estruturação cognitiva da realidade de cada indivíduo é ferramenta indispensável para que haja entendimento entre os mesmos, ainda que, deve-se salientar, não seja preciso que estas estruturações sejam semelhantes. Pode haver coincidência ou não no modo de interpretar estímulos por parte dos interlocutores, mas a inexistência de semelhanças não se faz um empecilho para a comunicação. Entretanto, deve-se lembrar que semelhanças certamente auxiliam a superação de tensões, bem como diferenças acentuam conflitos. A comunicação, afinal, sobrevive de concordâncias e discrepâncias.
Foto: Divulgação
Trabalho entregue à professora Lílian Reichert, pela disciplina Teorias da Comunicação I.