Não é novidade que o jornalismo seja o tema central dos roteiros de muitos filmes. “O preço de uma verdade” chama a atenção por fazer uma abordagem a respeito da ética – e falta dela – dentrto da profissão. E novamente chama a atenção quando, para tal abordagem, narra uma história real.
A abordagem a respeito da ética no jornalismo se dá através da História de Stephen Glass, jornalista que mesmo com pouca idade já fazia parte do quadro de repórteres de grandes revistas do país, inclusive o ícone político The New Republic. Glass se destacava por ter muitos artigos publicados num curto espaço de tempo e também por seu carisma. Vivia situações inusitadas que eram, inevitavelmente, publicadas.
Entretanto, o sucesso repentino de Stephen Glass se escondia por trás de artigos forjados – muito bem forjados, diga-se de passagem. Até mesmo as anotações feitas a respeito de cada artigo eram forjadas e suas fontes (quando declaradas, já que muitas vezes a única fonte é o próprio repórter) eram tão bem disfarçadas que nem mesmo a rigorosa equipe responsável pela comprovação das informações era capaz de dizer que elas nem sequer existiam.
Em uma de suas maiores reportagens publicadas, porém, Glass foi desmascarado pelo jornalista Adam Penenberg da Forbes Digital. A reportagem “O paraíso dos hackers” falava a respeito de um garoto de 12 anos, um hacker que havia invadido a rede de computadores de uma grande empresa de informática, e após ser descoberto teria sido contratado pela própria empresa, sob exisgências um tanto quanto estranhas: uma viagem à Disneylândia, assinatura vitalícia da revista Playboy etc. O editor de Penenberg acaba o censurando por não cobrir tal fato. Não se conformando em não ficar sabendo do ocorrido, Penenberg começa a pesquisar na internet os nomes ligados à reportagem de Stephen Glass e não consegue encontrar vestígio algum da existência da empresa, nem mesmo do garoto. Notando que a reportagem era falsa, Adam Penenberg e a Forbes Digital pressionam Glass, seu editor Chuck Lanes, e a própria The New Republic até que se descubra que não apenas a reportagem “O paraíso dos hackers”, mas 27 dos 41 artigos publicados por Glass na revista haviam sido forjados, com o simples intuito de se destacar na carreira jornalística, e assim conseguir “subir na vida” rapidamente.
Após ser desmascarado e demitido, Glass formou-se em Direito, que já vinha cursando há algum tempo, inclusive na época dos artigos forjados, e escreveu um livro chamado “The Fabulist”, contando a história de um jornalista que escrevia artigos falsos para subir na vida.
Tal história consegue ser irônica em vários momentos. Ao longo do filme, Stephen Glass se imagina em uma aula na faculdade em que havia se formado em Jornalismo, conversando com alunos e explicando como era difícil publicar um artigo. Enquanto isso, era elogiado por sua ex-professora. Somente no final do filme se mostra a sala de aula completamente vazia. Isso mostra que apesar de Glass demonstrar que se considerava absolutamente certo a respeito do que fazia, se encontrava em um cerco onde cada mentira necessitava de outra, e o fato de se imaginar um profissional exemplar, capaz de dar bons exemplos aos seus futuros colegas de profissão parecia o confortar.
Em outros momentos, apesar de ser absolutamente antiético em sua profissão, parte dos seus colegas se posicionam a seu favor, mesmo depois de tomarem conhecimento dos artigos forjados. Consideram como um simples tropeço.
Além disso, o filme chama também atenção para os deslizes cometidos pelas equipes de conferência. Ao longo do filme, faz-se questão de mostrar a complexidade do sistema norte-americano, a quantidade de vezes que o artigo / matéria / reportagem é revisado, e também quantas vezes as fontes são checadas. Ainda assim, com um sistema tão rigoroso, um jornalista conseguiu forjar 65% dos artigos que publicou.
Tudo isso nos leva a pensar na quantidade de artigos / matérias / reportagens veiculados na mídia brasileira que não passam de pura ficção, já que o nosso sistema de conferência é bem menos rigoroso, e possui mnos etapas que o norte-americano.
Sabe-se que ficção é algo que de fato vende bastante. Todavia, não é produto comerciável no mercado jornalístico, que preza pela existência de verdades e pela construção da realidade, nua e crua.