Ela faz jus à fama e mostra que a dança pode realmente transformar a vida das pessoas.

A fama de excelente bailarina e professora de dança não caiu por terra quando eu a conheci. Ela realmente faz jus à fama que possui entre alunos, amigos e profissionais da dança. Sorridente, atenciosa e extrovertida. Esta é Carmem Oliveira, mais conhecida como Mima, que me recebeu em uma de suas aulas de dança de salão e mostrou que dançar, realmente, faz bem à saúde e a alma!

Clarissa: Qual o seu nome, idade e profissão?

Professora Mima: Carmem Oliveira, 51 anos. Sou professora de dança.

 

Clarissa: Há quanto tempo a senhora dança?

Professora Mima: Danço desde os seis anos. Há 45 anos.

 

Clarissa: A senhora tem formação na área de dança?

Professora Mima: Minha formação em dança é técnica. Sou bailarina clássica formada pela EBATECA, e especializada em salão. Eu e Jorge, meu esposo e também professor de dança, somos formados pela EBATECA (Escola de Ballet do Teatro Castro Alves) com curso de jazz, música (Escola de Música da Bahia) e especializados em dança de salão pelos professores Carlinhos de Jesus e Jaime Arôxa para cursos regulares. Temos especialização em tango pelo professor Alfredo Garcia (argentino) e especialização em swing-americano, pelo professor Eduardo Hogan.

 

Clarissa: Qual a freqüência dos idosos na academia? As turmas são grandes?

Professora Mima: São turmas mistas com idosos. 50% são idosos. Temos aproximadamente nove turmas. Em média  20 a 30 casais. Uma turma em que jovens se relacionam com idosos é perfeito! É uma troca. Mesmo assim lidamos com casos de preconceito.

 

Clarissa: A maioria dos alunos se inscreve nas aulas com um parceiro de dança ou conhecem o parceiro durante as aulas?

Professora Mima: Maioria mulheres e apoio dos assistentes. Os assistentes são pares nas aulas, além de par constante em bailes.

 

Clarissa: Vocês costumam freqüentar bailes junto com os alunos? Há esse costume entre eles?

Professora Mima: Sim. Os assistentes são contratados para acompanhar na noite para que não tomem o famoso “chá de cadeira”. Eles têm agenda constante. Fazem curso de bolsista conosco num curso de multiplicadores e são treinados para atender as senhoras. A alto-estima delas eleva!

 

Clarissa: O professor Roberto, do Baile Azul e Branco comentou que às vezes não tem parceiro para todas e um só rapaz acompanha três ou quatro senhoras no baile.

Professora Mima: Ele é de acordo ou não?

Clarissa: Sim, com certeza!

Professora Mima: Tem um professor aqui em Salvador que é contra. São acompanhantes, não “homens”. É trabalho.

Clarissa: Claro, o objetivo é dançar, não?

Professora Mima: Sim.

Clarissa: Você diz que às vezes há preconceito…

Professora Mima: O preconceito de algumas mulheres em não contratar para não caracterizar “cafetinagem”. Às vezes quando telefonam para informações sobre a dança perguntam qual é faixa. Tanto jovem quanto mais velho. Alguns querem saber antes de se inscrever.

Clarissa: Isso é um pouco estranho. Se assim posso dizer, contrário à filosofia da dança, não?

Professora Mima: Sim, nós é que quebramos isto sempre. Cabe a nós sempre lembrarmos o que é a dança e seus objetivos. E isto muda. Há dez anos atrás era terrível.

Clarissa: Você quer dizer que há dez anos atrás não existiam turmas mistas?

Professora Mima: Há dez anos atrás existia um problema sério com as mulheres e/ou homens que iam dançar nas escolas. Elas eram vistas como dançarinas expostas aos homens, quando iam buscar somente distração. Daí tivemos apoio e reconhecimento do nosso trabalho de pesquisa e benefícios da dança com a saúde. Mudamos isto.

Clarissa: Isto com certeza deve ser gratificante!

Professora Mima: Casais brigavam porque marido ia sem a mulher para arranjar mulheres na dança (sic). A dança era responsabilizada pelas separações. Presenciei escândalos, inclusive na sala de aula. Daí as pessoas faziam escondido. Fizeram um filme, “CHEGA DE SAUDADE”, nacional, que reporta tudo isto. Realidade pura, impressionante. Todos os personagens são reais. Inclusive fomos nós a marca que fizemos a pré-estréia no Iguatemi. Fomos convidados para abrirmos o salão com a trilha sonora.

 

Clarissa: A  senhora sente que os idosos que fazem dança de salão hoje são essas pessoas que dançavam escondido há algum tempo, ou a maioria descobriu esse prazer pela dança recentemente?

Professora Mima: Tenho um caso de uma aluna que para fazer aula pela manhã dizia ao marido que ia à feira comprar banana… (risos)

Clarissa: (risos) Isso há dez anos ou hoje em dia?

Professora Mima: Há dez anos. Ele ficou doente na cama em casa inválido e ela se distraía com as aulas. Se jogava (sic) no chão para não deixar ela sair. (risos)

Clarissa: E essa doença surgiu depois que ele descobriu que ela dançava?

Professora Mima: Na verdade ele nunca tomou conhecimento da dança. Fizemos um espetáculo no ano 06 chamado “MULHERES” e criamos um quadro em que Dona Ninha saía para as aulas escondido do marido (risos). Ela vive este sonho que é dançar. É um exemplo de vida. Foi escravizada pelo marido, criou filhos e quando ele morreu e ela teve independência total se operou de urgência e ficou um tempo com o intestino para fora do corpo, impedida de dançar. Assim que ficou boa voltou imediatamente e participa de todos os eventos, inclusive espetáculos.

Clarissa: Realmente uma história de amor com a dança.

Professora Mima: Você me disse por e-mail que entrevistou Dona Raimunda Eleno. Conheço sua entrevistada! Uma figura! (risos) Outra historia de amor com a dança. Concorreu nesse fim de semana ao Ballace, encontro nacional de dança e ganhou!

Clarissa: Ah sim, o Ballace, claro!

Professora Mima: Você foi?

Clarissa: Não, infelizmente. Eu estava viajando. Ela me disse tudo isto na entrevista.

 

Clarissa: O que a senhora acredita ser o papel terapêutico da dança na vida dessas pessoas?

Professora Mima: Além do papel terapêutico, a dança ajuda a manter a saúde. As aulas em grupo promovem a socialização, o combate à depressão, além de haver aquela troca entre os jovens e os mais velhos. As pessoas ficam felizes quando dançam!

Clarissa: Tem algum ritmo específico da dança de salão mais indicado para pessoas da terceira idade?

Professora Mima: Eu não diria o mais indicado, mas com certeza o que eles mais gostam é o bolero. Por ser fácil de dançar, eles respondem bem a todos os movimentos. Além de relembrar a questão do romance. Está bem ligado à época deles, à época em que eles viveram, então eles se sentem bem dançando bolero. Até hoje eu ainda não tive nenhuma aluna que não tivesse respondido bem a todos os movimentos, de todas as danças. E eu digo alunas porque os giros, aquilo que exige mais do corpo vem da dama, e o cavalheiro a conduz. Mas o bolero é o favorito entre todos os tipos de dança. Eles adoram mesmo!

 (Entrevista feita com o intuito de produzir uma matéria sobre Dança para Terceira Idade, pela Disciplina Redação I)

1 Resposta até o momento »

  1. 1

    Andréia disse,

    Dou aula de ginástica e dança para terceira (melhor) idade há 7 anos como voluntaria numa entidade assistencial, porém tenho tido convites de ampliar esas aulas para público pagante, e adorei a idéia…afinal de contas, fazer o que gosta e ter retorno financeiro é muito bom!! quero saber se há algum curso ou especialização que eu possa fazer para ampliar meus conhecimentos e melhorar ainda mais as minhas aulas?


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